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No plano do desenho, das artes manuais e prendas domésticas, a importância do folclore não necessita ser posta em relevo, tal a sua evidência. Mas, na escola rural, o interesse ultrapassa o ensino em si, para ser acentuadamente social, ou, se quiserem, para dar destino à grande parte do ensino. Porque, um dos problemas mais graves com que nos defrontamos e cujas implicações envolvem os planos de desenvolvimento do Brasil, é o êxodo dos campos e a hipertrofia das cidades. Uma das soluções cabe à escola, a de fazer a ligação do homem a terra. Não lhe compete toda a tarefa, mas pode iniciá-la auspiciosamente, e, nesse sentido, o ensino das artes deve ser funcional. A escola precisa aproximar-se das indústrias rurais da região. Se estivermos em zona de cerâmica utilitária ou lúdica, numa área de madeira ou de couro, verificado o caráter do meio, o professor orientará seus debuxos, suas artes manuais para aqueles centros de interesse, valorizando o que possuímos tradicionalmente. Se a escola está numa região de rendas ou de tecelagem, deve ser ensinado o que se refere ao assunto, nas normas locais, podem ser dados elementos que desenvolvam a fantasia e a criatividade, mas não pontos de renda completamente diversos. Talvez mais bonitos, porém o temor de que subestimem a arte tradicional folclórica. Daí a necessidade de informação precisa das características ecológicas da região para que, no seu enquadramento, o ensino seja orientado nesse particular, onde o folclore passa a ter um valor social irrecusável. Para a formação dos artesanatos, as artes caseiras e folclóricas são importantes e significativas, porque constitui em todos os países, invejável fonte de renda. Em vez de deixarmos que seja monopolizada a atividade de lembranças folclóricas, industrializando-as em série, será melhor criarmos os artesãos, que sempre as farão amorosamente. Por que não especializarmos nossa gente nessa atividade altamente lucrativa, como acontece na Europa, em que os pitorescos dessas coisas estão sempre ligados à autenticidade? Muito se poderia dizer sobre a exigência de proteção a essas artes, mas o assunto foge a estas considerações. O Folclore é indispensável ao desenho e às artes manuais e caseiras e vemos com tristeza, nas cadeiras de Artes Plásticas de nossas escolas, professoras perderem tempo fazendo objetos vulgares e incaracterísticos, quando podiam aproveitar elementos folclóricos, que tanto interessariam aos alunos. Carmélia de Andrade, num estudo sobre 0 Folclore e o Ensino de Trabalhos Manuais, mostra como nessa disciplina "a utilização do Folclore pode contribuir fortemente para melhorar o artesanato e o julgamento das artes populares", utilizando técnicas artesanais folclóricas em madeira, metal, matéria plástica, etc. Muitos artistas do povo encaminham a sua sensibilidade para o setor de figuras (homens e animais), criando-as em barro ou madeira, sempre em decorrência dos aportes culturais da região. Santeiros ou figureiros, ou ainda imaginários unem a arte à sua feição religiosa ou aos de sua criatividade. Há também os que esculpem Carrancas (figuras de proa dos barcos do São Francisco), dando-lhes um cunho sobrenatural, e ex-votos, para cumprimento de promessas. Para melhor conhecimento das artes e artesanatos da comunidade, e mesmo para o seu levantamento, a escola deverá promover visitas que possibilite contato com o artesão e o artista, observação de sua técnica, do meio em que vive e o reflexo de sua atividade nos setores sócio-econômico-cultural. Deve, ainda, se interessar junto às autoridades municipais para a organização de uma exposição-feira (periódica ou permanente), que não serão simples mostra da tradição artística da gente do povo, mas plena confirmação e revelação do seu mérito no desenvolvimento do homem brasileiro. Através das expressões de arte será alcançada a integração racial e social, fornecendo a homogeneidade nacional e acalentando o sentimento de brasilidade. Lendas e mitos, usos e costumes se constituirão em temas para a livre manifestação do mundo interior do aluno, revelando os seus pendores para o impressionismo, realismo, classicismo ou o ingênuo primitivo. A arte, para atingir a universalidade, deve ter suas raízes na terra em que nasceu. O conhecimento e o amor por essas raízes, se não nascem no lar, precisam nascer na escola. E a música? será talvez onde estamos melhor, mas muito ainda há por fazer. O ritmo é um elemento nacionalizante por excelência e visto possuirmos grandes núcleos de estrangeiros, devemos dar ênfase ao canto, mas ao canto folclórico, de um lado para ensinar as nossas melodias e ritmos, de outro, para erradicar, paulatinamente, os ritmos nativos desses alunos, que transportarão aos seus lares a nossa rítmica, um dos fatores para a sua integração na terra nova, que será sua pátria. Insisto que se cante e se dance nas escolas coisas nitidamente locais, particularmente nos centros de estrangeiros. É preciso proporcionar-lhes, com constância, os ritmos e as melodias dos nossos recortados, dos nossos moçambiques, de nossas cirandas e batuques, de nossos cururus e sambas, de nossas modas de viola, numa atividade tanto ligada aos poderes federais como estaduais e municipais. Uma investigação sociológica feita por Florestan Femandes, em bairros de São Paulo, demonstrou que as crianças se agrupavam unidas pelo folclore, e, ainda que em sua maioria fossem brasileiras, também em maioria os pais eram estrangeiros. Mais do que o dirigismo político, mais do que as providências coercitivas, estaremos tomando-os, pelos seus filhos, bons, excelentes brasileiros, com a nossa melodia, com o nosso ritmo, com as nossas danças, com as festas do Divino, de Santa Cruz, de São Benedito, de São João, etc. No Paraná, sei de poloneses que se pintaram de preto para tomar parte em Congadas; em São Paulo nisseis integram representações dos Pastoris de Alagoas; filhos de italianos se incorporam às fileiras de Moçambique no Vale do Paraíba (SP). Essa é a boa política e a escola está chamada a desempenhar um grande papel nesse nacionalismo belo e fecundo, que nada tem de agressivo nem de violento. É a incorporação musical do estrangeiro que vem viver nesta terra generosa e que deve não apenas se preparar para servi-la, mas também para amá-la. O folclore é uma força de interação, suave e sugestiva, pitoresca e divertida, a ser utilizada na escola. Acredito, autorizada pelo meu duplo amor ao ensino e ao folclore, que as autoridades de educação deveriam reunir especialistas nas duas atividades para formulação de instruções metodológicas. A música pode ser utilizada nas rodas infantis, nos brinquedos cantados, nas danças de conjunto (algumas das quais são de tanto efeito para as festas escolares, como o Pau-de-Fita, a Ciranda, não só de roda, mas dançada) e nos corais. Alexina de Magalhães Pinto nos mostra que, gostando as crianças de imitar a natureza, a cantiga da Corda da Viola oferece ensejo para uma série de perguntas sugestivas e indutivas, relativas às vozes de animais, insistindo no alcance educativo dos brinquedos imitativos. A ilustre folclorista mineira não só se preocupou em utilizar o folclore no fortalecimento da unidade nacional, mas também com o comportamento de folcloristas e educadores ante o assunto. Há muito escrevia Villa-Lobos: "Hoje não é mais possível fazer abstração do material fornecido pelo folclore musical para as questões educacionais da infância. Pois é perfeitamente intuitivo que a consciência musical da criança não deve ser formada tão somente pelo estudo dos mestres clássicos estrangeiros, mas simultaneamente, pela compreensão racional e quase intuitiva das melodias e dos ritmos fornecidos pelo próprio folclore nacional, o que facilmente se compreende, pela analogia que existe entre a mentalidade ingênua, espontânea e primária do povo e a mentalidade infantil, igualmente ingênua e primitiva.(...) O folclore é hoje considerado como uma disciplina fundamental para a educação da infância e para a cultura de um povo. Porque nenhuma outra arte exerce sobre as camadas populares uma influência tão poderosa quanto a música, como também, nenhuma outra arte extrai do povo maior soma de elementos de que necessita como matéria-prima. Acresce a circunstância de que algumas das nossas canções folclóricas apresentam o aspecto de uma beleza tão pura e características de brasilidade tão acentuados que nos fazem admirar, sem restrição, o talento simples que as criou." A organização de corais de primeiro e segundo graus incluirá melodias autênticas do povo, das quais já existe um grande e variado documentário escrito e gravado. A iniciação musical, setor a que Lidy Mignone deu diretivas tão seguras com suas bandinhas rítmicas, servirá, com o aproveitamento do folclore, para que as crianças se habituem, desde cedo, com as formas musicais e as danças do nosso povo. Parte, assim, a cultura musical infantil, daquilo que lhe é familiar (cirandas, cantigas de roda e de ninar), de modo que o folclore será seu "lastro-ouro". Fonte: |